Laudos periciais dos locais dos crimes e dos corpos devem sair esta semana. Medo de testemunhas prestarem esclarecimentos prejudica investigações

Nesta segunda-feira (20) completa um mês da maior série de homicídios já registrada na Grande Belém. No total, 27 pessoas foram assassinadas e ninguém ainda foi preso. Segundo a Polícia Civil, os laudos periciais de locais do crime e dos corpos das vítimas devem ficar prontos esta semana. Mas, o medo das testemunhas prestarem esclarecimentos tem prejudicado as investigações.

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A série de assassinatos na capital paraense aconteceu na noite depois da morte do policial daRonda Tática Metropolitana (Rotam) Rafael da Silva, de 29 anos, morto durante uma perseguição policial no dia 20 de janeiro de 2017. As investigações trabalham com a hipótese de relação entre os casos. Na ação criminosa, 25 pessoas foram assassinadas e dias depois mais duas pessoas morreram no hospital.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado (Segup), dos quatro sobreviventes que estavam internados, três já receberam alta e uma continua no Hospital Metropolitano, com quadro de saúde estável.

Investigações
De acordo com o Delegado Silvio Maués, a Polícia Civil trabalha com uma grande equipe para esclarecer os fatos e já dividiu os eventos em três situações distintas, para minimizar o universo dos acontecimentos.

“Nós temos eventos que estão sim relacionados, mas não naquela proporção, separamos em três formas: 1)os eventos que poderiam caracterizar uma reação por um sentimento de vingança envolvendo agentes públicos ou pessoas associadas a eles; 2) situações oportunistas, aquelas daquele momento para e colocar isso na conta das pessoas que tenham praticado os outros eventos; e 3) acontecimentos eventuais, que aconteceriam independente do evento”, explicou o delegado.

O delegado explica que muitas informações já foram levantadas, com depoimentos e imagens de circuito interno de segurança, mas como se trata de um caso complexo, demanda tempo para ser totalmente solucionado.

“Só as perícias iniciais, que são extremamente importantes, para nos dar uma resposta que possa direcionar em relação a como a investigação vai se conduzir, já leva um tempo maior. Nós estamos aguardando respostas de local do crime e a questão cadavérica. Temos uma previsão que até esta semana já teremos os laudos que vão fazer o julgamento daqueles eventos e poder direcionar um pouco mais as investigações”, ressaltou Silvio Maués.

Apesar do esforço da polícia em elucidar tanto a série de homicídios como o assassinato do policial militar, o delegado pontua um problema que tem atrapalhado as investigações: o medo das testemunhas em passar informações dos crimes.

“Enquanto os laudos não saem, existe o trabalho de campo, o que é extremamente difícil, com a coleta de depoimentos porque pelas características dos eventos, há uma dificuldade muito grande você obter uma testemunha que traga uma qualidade no desvendamento do crime. Nós vamos confrontar, a partir do momento em que essas perícias estiverem disponíveis, para que a gente possa ter de imediato já o cenário montado”, afirmou.

Medo
Para a Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA), o medo que as pessoas têm em passar qualquer tipo de informação a policia está prejudicando as investigações. Para a entidade, o problema está relacionado à ineficiência dos programas de proteção às testemunhas.

“A polícia usa as denúncias anônimas, mas se faz necessário, muitas vezes, que pessoas que tenham conhecimento ou saibam algo sobre esse grupo organizado que vem cometendo esses homicídios possam ser identificados. Mas, o sistema de proteção a essas testemunhas não é de todo perfeito e gera toda uma problemática que faz com que as testemunhas não se sintam seguras para ir até a autoridade policial”, avalia Rodrigo Godinho, presidente da Comissão Segurança Pública da OAB-PA.

A Ouvidoria da Secretaria de Segurança Pública acompanha as investigações e também acredita que o medo que as testemunhas sentem prejudica a elucidação dos crimes.  “É muito preocupante e mais do que preocupante, é uma questão de medo e de ameaça de morte”, denuncia a ouvidora Eliana Fonseca.

Para ela, o atentado que aconteceu no bairro da Pedreira contra familiares de vítimas da série de assassinatos mostra a ineficiência do programa de proteção a testemunhas.

“Foi um atentado a vida, novamente para tirar do circuito pessoas que têm condições de esclarecer os fatos. O que está ocorrendo é a insuficiência de resposta para a sociedade aí leva a descredibilidade num processo que já dura dois anos de uma chacina [caso de 2014] não esclarecida 100% e agora essa outra, que completa 30 dias. Esperamos que o Estado dê uma resposta eficiente para toda a sociedade e principalmente para os familiares”, afirmou a ouvidora.

Entenda o caso
Os crimes aconteceram no período de 6h do dia 20 de janeiro até 8h do dia 21, em 20 bairros da capital, quando homens encapuzados e armados com pistolas saíram de um carro preto e atiraram contra um indivíduo ou um grupo de pessoas. De acordo com a Segup, algumas das vítimas apresentaram tiros na cabeça, outras com vários tiros no corpo e alguns levaram tiros pelas costas.

Diário do Pará

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